Cigarras tomam as quadras do Plano Piloto: por que o coro de outubro anuncia a chuva
O canto das cigarras aparece em setembro e outubro no DF, com o auge na 316 Sul, e marca a virada da seca para as primeiras chuvas. Um biólogo explica o que está por trás do barulho.

Foto: Francesco Ungaro/Pexels/Pexels
Se você passou pela 316 Sul nas últimas semanas, já ouviu: um canto insistente vem das árvores. São as cigarras, que saem de baixo da terra todo ano no começo da primavera. Em Brasília, outubro é o mês em que o coro fica mais alto.
O Correio Braziliense foi até a quadra e ouviu moradores e um biólogo. A 316 Sul se destaca porque tem muita árvore e muita planta, o que atrai mais bicho. Mas o canto também aparece em outros endereços do Plano Piloto.
Por que elas cantam agora
Segundo o biólogo Vitor Sena, a maior parte da vida da cigarra passa debaixo do chão, na fase de ninfa, quando ela se alimenta da seiva das raízes. Quando o desenvolvimento termina, ela sobe, vira adulta e vai se reproduzir. Temperatura e umidade controlam esse relógio, e as duas mudam justamente quando as chuvas se aproximam.
No Cerrado, a saída acontece entre setembro e outubro. Daí vem a crença popular de que cigarra cantando é sinal de que a seca está perto do fim. O barulho em si é recado de namoro: quem canta é principalmente o macho, para as fêmeas o encontrarem. O som sai de estruturas chamadas tímbalos, que vibram rápido e o volume sobe quando muita cigarra canta ao mesmo tempo.
Elas participam de cadeias alimentares, da ciclagem de nutrientes e da dinâmica do solo.Vitor Sena, biólogo, ao Correio Braziliense
O que quem mora ali diz
A reportagem encontrou opiniões divididas. O estudante Miguel Guimarães, 21 anos, morador da quadra, gosta: para ele, o som quebra a ideia de selva de concreto. Já a babá Rebeca Marques, 28, conta que o barulho às vezes atrapalha a soneca do bebê de quem ela cuida, mas lembra que a época está muito seca e que o canto avisa que a chuva vem aí.
Para Consuelo dos Santos, 53, que trabalha em prédios da Asa Sul, o som lembra a roça onde ela cresceu. O vendedor Vinicius Mendes, 29, que tem ponto na 116 Sul às terças, sente saudade da Paraíba.
Enquanto as primeiras chuvas não vêm de vez, o coro segue nas quadras. Para ouvir de perto, o Correio indica a 316 Sul.


